Ana e seus Cabelos
Desde a mais tenra idade que se lembra, Ana “sofria” com
seus cabelos. Puxara os da família materna: bem secos. Segundo sua mãe, nascera
careca, mas com o passar dos 2 anos, surgiu-lhe uma “vassouuuura”.
Sua mãe, D. Maria, era muito cuidadosa e toda semana
trançava os cabelos de Ana e sua irmã Lela. Esta, mais nova 1,4anos, tinha os
cabelos mais sedosos que os da irmã mais velha. Os cabelos da Lela ficavam em
cachos facilmente, os de Ana... Nunca! E ela morria de inveja. D. Maria tentando
lhe amenizar o sofrimento, buscava alternativas indicadas: trançava os cabelos
das filhas apertando tanto, que elas ficavam com olhinhos de japonês. Assim,
não havia diferenças “capilares” entre as duas. Mais tarde, esticava as
madeixas de Ana com “pente quente”. Este era um ritual que merece maiores
descrições: A mãe de Ana espalhava nos cabelos da filha um pouco de vaselina e
penteava tudo para a frente. Colocava o pente, que era de alumínio batido, para
esquentar na trempe do fogão, em chama baixa. Aí, com o auxílio de um pente de
cabo fino puxava umas mechas e passava o pente quente. E sucessivamente até
esticar toda a cabeleira da pequena Ana. Porém, vez ou outra ocorria uns
pequenos acidentes de percurso durante este trabalho: se o pente esquentava demais,
torrava os cabelos da garota, deixando a mecha mais curta. E fedia... Ou... inquieta
como ela só, Ana às vezes era beijada no pescoço, orelha ou testa pelo pente
quente. E as lágrimas escorriam! Mas o resultado final era ótimo! Desde que não
chovesse, é claro!
Mais tarde, o recurso era alisar com pasta e o couro
cabeludo da menina de uns 7 anos dava “perebas”. Durante a adolescência os
cuidados com os cabelos ficaram por conta de sua dona: produtos relaxantes à
base de hidroxido de amônia; hidróxido de sódio; pirogalol(fenol) e chumbo. Usou cabelos curtinhos; rolinhos (os cabelos agradeciam
muito!); até que a já madura Ana rendera-se ao tão famoso progresso: formol?
Não! Tioglicolato, carbocisteína. Seus cabelos ficaram lindos, no início, mas
depois... ressecamento, quebra dos fios, queda... corta, corta e guanidina. A
essas alturas faltava paciência para escovar, etc. Ana alimentava há bom tempo
o desejo de deixar seus cabelos naturais e “babava” quando via mulheres lindas,
corajosas, donas de si com suas enormes madeixas naturais.
Hoje, no auge de sua madureza e após ter sido tocada pela
Fada Madrinha da autoestima e Beleza Negra, Ana assumiu: Cabelos Reais! Parece
menina em frente ao espelho... Penteia, ouriça os cabelos, enfeita com flores,
fitas, laços, lenços e se pinta. Porque descobriu que seus cabelos podem tudo o
que ela quiser. Inclusive deixarem Ana linda e feliz.
CORAGEM
Ana Alcântara
Andam dizendo da radicalidade de quem assume seus cabelos
naturais: joãozinho, sarará, crespos... Quanta coragem!
Só que parei pra pensar que pouco dizem da coragem de
outras pessoas que que: gastam de 500
a mil Reais para comprar e colocar um Megahair bem longo na cintura ou bem cheio; as que
submetem-se à progressivas sufocantes ou a ácidos vários que modificam a
estrutura dos fios. Isso quando não derrubam os cabelos no chão e/ou até
provocam feridas... muitos calam-se ou até aplaudem as corajosas que descolorem
completamente seus fios, em nome da moda “blondor”; ou as que arrasam no
vermelho ou até mesmo no tradicional preto azulado.
A verdade, é que tudo que nos torna diferentes dos outros
choca e incomoda. Mas se estas nossas diferenças nos aproximam da Raça Negra e
mostram de fato nossas raízes, o susto é bem maior.
É como se mexêssemos num vespeiro. A expressão adjetiva
“Que coragem” soa como “Que loucura”. Entretanto, teimo em reafirmar, inclusive
para mim, que loucura é não se aceitar e não sentir-se belo ou tornar-se
referência dentro de suas próprias características étnico raciais. Falta de coragem
é dizer numa pesquisa ou em conversas que a pessoa é moreninha, moreninha
escuro, escurinha e não dizer em alto e bom tom: ela é negra. Eu sou negra.
Então meus amigos, que tenhamos coragem de assumir quem
somos ou o que queremos ser, respeitando e tratando com delicadeza a loucura
capilar de quem veste a camisa da coragem.
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