sábado, 24 de agosto de 2013

SABADÃO

O que eu mais queria hoje?
Deixar de cumprir com os compromissos domésticos e viver.
Viver intensamente ao lado de dois amores... Dividir-me entre o amor materno e o amor íntimo. Segurar o punho de meu filho e ser enlaçada por seu braço. Andarmos os três sem hora marcada; seguirmos de ônibus criticando o caos que reina em nossas vias e Bernardo contemplando os carros, caminhões e as árvores sobreviventes ao progresso. Descermos no Parque Municipal e deixar o menino brincar em vários equipamentos, aproveitando para trocarmos beijos furtivos.
Depois, com a astúcia de adultos, convenceríamos o pequeno a lanchar na grama: suco, pipoca, uma fruta... Dar nele beijos de mãe e em você beijos de mulher. Receber seus beijos de homem e ele os de pai, amigo. Quando finalmente o cansaço nos abatesse, voltaríamos pra casa. 
Após um banho e um copo de leite, meu filho dormiria. 
E seria a nossa hora... Um banho juntos, cheios de carinhos e cuidados; fazer levadezas musicais em nossa cama e então, eu descansaria em você e você descansaria em mim. 
O sábado estaria completo.

sábado, 17 de agosto de 2013

Pena eu ter lhe conhecido só agora...
Você dialoga com todas as mulheres que há em mim:
 a dama e a safada; a cantora, a poeta e a dançarina; 
a locutora e a ouvinte; a professora e a aprendiz;
a mãe, a fêmea... a Mulher!


Ana e seus Cabelos

Desde a mais tenra idade que se lembra, Ana “sofria” com seus cabelos. Puxara os da família materna: bem secos. Segundo sua mãe, nascera careca, mas com o passar dos 2 anos, surgiu-lhe uma “vassouuuura”.
Sua mãe, D. Maria, era muito cuidadosa e toda semana trançava os cabelos de Ana e sua irmã Lela. Esta, mais nova 1,4anos, tinha os cabelos mais sedosos que os da irmã mais velha. Os cabelos da Lela ficavam em cachos facilmente, os de Ana... Nunca! E ela morria de inveja. D. Maria tentando lhe amenizar o sofrimento, buscava alternativas indicadas: trançava os cabelos das filhas apertando tanto, que elas ficavam com olhinhos de japonês. Assim, não havia diferenças “capilares” entre as duas. Mais tarde, esticava as madeixas de Ana com “pente quente”. Este era um ritual que merece maiores descrições: A mãe de Ana espalhava nos cabelos da filha um pouco de vaselina e penteava tudo para a frente. Colocava o pente, que era de alumínio batido, para esquentar na trempe do fogão, em chama baixa. Aí, com o auxílio de um pente de cabo fino puxava umas mechas e passava o pente quente. E sucessivamente até esticar toda a cabeleira da pequena Ana. Porém, vez ou outra ocorria uns pequenos acidentes de percurso durante este trabalho: se o pente esquentava demais, torrava os cabelos da garota, deixando a mecha mais curta. E fedia... Ou... inquieta como ela só, Ana às vezes era beijada no pescoço, orelha ou testa pelo pente quente. E as lágrimas escorriam! Mas o resultado final era ótimo! Desde que não chovesse, é claro!
Mais tarde, o recurso era alisar com pasta e o couro cabeludo da menina de uns 7 anos dava “perebas”. Durante a adolescência os cuidados com os cabelos ficaram por conta de sua dona: produtos relaxantes à base de  hidroxido de amônia; hidróxido de sódio; pirogalol(fenol) e chumbo. Usou cabelos curtinhos; rolinhos (os cabelos agradeciam muito!); até que a já madura Ana rendera-se ao tão famoso progresso: formol? Não! Tioglicolato, carbocisteína. Seus cabelos ficaram lindos, no início, mas depois... ressecamento, quebra dos fios, queda... corta, corta e guanidina. A essas alturas faltava paciência para escovar, etc. Ana alimentava há bom tempo o desejo de deixar seus cabelos naturais e “babava” quando via mulheres lindas, corajosas, donas de si com suas enormes madeixas naturais.
Hoje, no auge de sua madureza e após ter sido tocada pela Fada Madrinha da autoestima e Beleza Negra, Ana assumiu: Cabelos Reais! Parece menina em frente ao espelho... Penteia, ouriça os cabelos, enfeita com flores, fitas, laços, lenços e se pinta. Porque descobriu que seus cabelos podem tudo o que ela quiser. Inclusive deixarem Ana linda e feliz.






CORAGEM
Ana Alcântara

Andam dizendo da radicalidade de quem assume seus cabelos naturais: joãozinho, sarará, crespos... Quanta coragem!
Só que parei pra pensar que pouco dizem da coragem de outras pessoas que que: gastam de 500 a mil Reais para comprar e colocar um Megahair  bem longo na cintura ou bem cheio; as que submetem-se à progressivas sufocantes ou a ácidos vários que modificam a estrutura dos fios. Isso quando não derrubam os cabelos no chão e/ou até provocam feridas... muitos calam-se ou até aplaudem as corajosas que descolorem completamente seus fios, em nome da moda “blondor”; ou as que arrasam no vermelho ou até mesmo no tradicional preto azulado.
A verdade, é que tudo que nos torna diferentes dos outros choca e incomoda. Mas se estas nossas diferenças nos aproximam da Raça Negra e mostram de fato nossas raízes, o susto é bem maior.
É como se mexêssemos num vespeiro. A expressão adjetiva “Que coragem” soa como “Que loucura”. Entretanto, teimo em reafirmar, inclusive para mim, que loucura é não se aceitar e não sentir-se belo ou tornar-se referência dentro de suas próprias características étnico raciais. Falta de coragem é dizer numa pesquisa ou em conversas que a pessoa é moreninha, moreninha escuro, escurinha e não dizer em alto e bom tom: ela é negra. Eu sou negra.
Então meus amigos, que tenhamos coragem de assumir quem somos ou o que queremos ser, respeitando e tratando com delicadeza a loucura capilar de quem veste a camisa da coragem.